Os britânicos The Kills de Jamie Hince e Alison Mosshart acabaram finalmente um hiato discográfico de praticamente meia década, já que o excelente Blood Pressures tinha sido o último disco que a dupla lançou já no longínquo ano de 2011. Gravado no outro lado do atlântico, em Los Angeles e nos estúdios Electric Lady, em Nova Iorque, Ash & Ice é o nome do novo álbum dos The Kills, um trabalho produzido pelo guitarrista Jamie Hince, com a preciosa ajuda do conceituado John O’Mahoney e lançado pela Domino Records.

Uma das primeiras impressões que sobressai de Ash & Ice é a manutenção da química intensa entre a dupla, uma das conexões mais sólidas e bem sucedidas do espetro sonoro em que estes The Kills se movimentam. A guitarra fluída de Hince em Heart Of A Dog, o modo como o som sintetizado que baliza a melodia em Doing To The Death, sem beliscar o fuzz das cordas eletrificadas e a emotividade e pujança vocal de Alison, em ambos os temas, esclarece, desde logo, os mais pessimistas e sossega os fãs acérrimos de um projeto que tem uma significativa e fiel prole de seguidores por cá.
Mas as constatações e as revelações em Ash & Ice não ficam por aqui. Tendo em conta estes temas iniciais, o trabalho não defrauda a herança da dupla, mas chega-se à imponência percussiva de Bitter Fruit e ao rigor e pendor orgânico da batida de Siberian Nights, duas canções feitas de punhos cerrados e queixo levantado, como o velhinho e anguloso indie rock exige, para se concluir que, além do aspeto identitário anteriormente referido, estes The Kills também continuam capazes de, sem dó nem piedade, proporcionarem um ambiente ora sombrio e nostálgico, ora aquele onde cabem os jeans coçados escondidos no guarda fatos, as t-shirts coloridas e um congelador a bombar com cerveja e a churrasqueira a arder porque é hora de festa.
Se a cereja no topo do bolo de Ash & Ice é, quanto a mim, Impossible Tracks, canção com uma vibração ímpar e que emerge com toques de grandiosidade em estradas difíceis de percorrer, é no refrão da mais soturna e exigente Days Of Why and How, no ardor intimista de That Love e no sentimentalismo minimalista de Hum For Your Buzz, que se entende que este alinhamento também amplia o som de uns The Kills notoriamente na fase mais madura da carreira e abertos e prontos para novas sonoridades e descobertas, apesar de confessarem sentirem-se mais confortáveis a explorar os recantos mais obscuros de uma relação que se deseja que não seja sempre pacífica entre a mágica tríade instrumental que compôe o arsenal de grande parte dos projetos inseridos nesta miríade sonora. No fundo, o rugoso, crú e visceral punk rock dos The Kills mantém-se intocável, assim como o charme inconfundível de uma dupla única e sem paralelo no universo alternativo atual. Espero que aprecies a sugestão...

01. Doing It To Death
02. Heart Of A Dog
03. Hard Habit To Break
04. Bitter Fruit
05. Days Of Why And How
06. Let It Drop
07. Hum For Your Buzz
08. Siberian Nights
09. That Love
10. Impossible Tracks
11. Black Tar
12. Echo Home
13. Whirling Eye
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