Três anos após Lonerism, o disco que levou os Tame Impala de Kevin Parker ao estrelato e a um reconhecimento superior que Innerspeaker, o disco de estreia, não tinha proporcionado, chegou finalmente aos escaparates o tão aguardado sucessor desses dois trabalhos que refletiram a exploração de um universo muito pessoal e privado do grande mentos do projeto. O novo álbum deste quinteto australiano intitula-se Currents, está novamente abrigado pela chancela da Modular e da Interscope Records e, sendo mais pop, dançante e eletrónico que os antecessores, não deixa de conter essa vertente pessoal fortemente impregnada. Eventually, por exemplo, uma balada tranquilamente pop e um dos singles retirados do disco, poderá muito bem refletir a separação recente de Kevin Parker de Melody Prochet, vocalista do projeto francês Melody's Echo Chamber.
A nostalgia e o modo como são apresentados com uma contemporaneidade invulgar alguns sons do passado, continua a ser uma pedra de toque importante na discografia dos Tame Impala, conhecidos por nos transportar até aos dias em que os homens eram homens, as raparigas eram girl-groups e a vida revolvia em torno da ideia de expandir os pensamentos através de clássicos de blues rock, com os Cream ou Jimmy Hendrix à cabeça. E Currents não foge à regra deste modus operandi, mas num rumo diferente dos antecessores, com temas como I Less Know The Better ou Disciples a persistirem nos constantes encaixes eletrónicos durante a construção melódica e juntando um almofadado conjunto de vozes em eco e guitarras mágicas que se manifestam com uma mestria instrumental vintage única, mas apostando, fundamentalmente, em texturas mais sintéticas, exemplarmente sintonizadas nas sobreposições e mudanças de ritmo de Really In Motion, um dos temas onde eletrónica e psicadelia se juntam de modo a descobrir novos sons, dentro de um espetro eminentemente pop. Aliás, Currents está cheio de exemplos em que se passa, num ápice, do hip-hop para o R&B, com a nostalgia deste genero, esplendorosa em Cause I'm A Man e a fazer recordar um R. Kelly na fase mais fulgurante da carreira, a dominar o ambiente sonoro do disco e com Love/Paranoia a aconchegar-se nos nossos ouvidos e a colar-se à pele com o amparo certo para que se expresse a melíflua melancolia que Parket certamente quis que deslizasse das suas canções, já que o mistério é, também, um elemento estruturante da sua filosofia sonora.
Assim, e olhando para Currents como um todo, se logo em Let It Happen, o longo tema de abertura, ficou explícito que os Tame Impala estão menos dependentes das guitarras e que resolveram chamar os sintetizadores para um plano de maior destaque, que em The Moment revelam-se particularmente esplendorosos e eficazes nessa tal busca de efeitos genuínos e futuristas, a verdade é que, pouco depois, sem deixarem de lado a sua típica groove viajante, plasmam em Yes I'm Changing a tal estética mais próxima de uma certa pop negra avançada, fazendo-o com uma vibração excitante, onde não faltam alguns samples de sons urbanos, espelhando essa opção por uma toada mais R&B, mas mantendo-se a temática de revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia.
Em suma, cheio de espaço, minimal e carregado de sintetizadores impregnados de efeitos, com texturas e fôlegos diferentes e onde aquela sensação de experimentação caseira ainda bem presente, além de letras simples e até algo vagas, Currents clarifica as novas coordenadas que se apoderaram do departamente de inspiração de Parker, sendo o resultado da sua nova ambição em se rodear com uma aúrea resplandescente e romântica e de mostrar uns Tame Impala renovados e cada vez mais heterogéneos e abrangentes. Além de encontrarmos Currents nas lojas em breve, será possível também ver os Tame Impala em Portugal este ano, pois já estão confirmados no Festival Vodafone Paredes de Coura. Espero que aprecies a sugestão...
01. Let It Happen
02. Nangs
03. The Moment
04. Yes I’m Changing
05. Eventually
06. Gossip
07. The Less I Know The Better
08. Past Life
09. Disciples
10. Cause I’m A Man
11. Reality In Motion
12. Love/Paranoia
13. New Person, Same Old Mistakes

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