Brace/Choir - Turning On Your Double

Num tempo em que o mundo em que vivemos não roda à volta da sua estrela, mas, em vez disso, rodopia com particular frenesim e um ênfase tal que faz com que vivamos num mundo cheio de perigos e que parece, em determinados períodos da história contemporânea, ter um apetite voraz e incontrolado pela implosão, Turning On Your Double é, de acordo com o press release do lançamento, uma série de oito contos sombrios sobre doença mental, uma meditação sobre as lutas individuais e sociais com distúrbios compulsivos e esquizofrenia: quatro pessoas unidas por uma visão idealista de colaboração, na qual chegaram a pensar que eram uma só pessoa, e as fracturas que surgiram nas suas vidas e personalidades quando a música pára. Temas como a traição, ficção satânica, neuroses relacionadas com a tecnologia e a morte de Osama Bin Laden são revelados através duma combinação de improvisação arrebatadora e composição sublime.



Os Brace/Choir são Christoph Adrian, Max Gassmann, Alex Samuels e Dave Youssef, um quarteto que se formou em Berlim, na Alemanha, no já longínquo ano de 2006. Este disco, lançado por intermédio da Tapete Records no final de fevereiro, sucede a um EP homónimo de 2010 e embarca esta banda num espiral sombria, mas, nem por isso, menos empolgante e atrativa. Falo de um caldeirão sonoro assente num rock progressivo e psicadélico, que não vive só do baixo e da guitarra, mas também do teclado, um elemento essencial do processo de criação melódica de quase todas as canções de Turning On Your Double. Estes instrumentos constituem a tríade que a banda usa como canal privilegiado para comunicar conosco sobre temas como a morte e o renascer e as já clássicas temáticas do amor e de alguns distúrbios emocionais que o mesmo pode provocar, assim como alguns eventos marcantes da nossa história contemporânea. Por exemplo, Fallmen alude explicitamente à captura e morte de Osama Bin Laden.


Uma das particularidades dos Brace/Choir é serem, praticamente todos, multi-instrumentistas, o que lhes permite trocar de ferramenta sonora entre as músicas, quer ao vivo quer em estúdio, o que faz com que cada um dos instrumentos fale com uma diferente voz, cada vez que ganha vida e cor nas canções dos Brace/Choir. É curioso sabermos que este disco tem uma conceção sonora geral e bem balizada e depois percebermos, ao longo da audição, que os diferentes instrumentos têm uma diferente tonalidade e timbre, de mão para mão.


Nomes como os the Replacements ou os Faust são influências declaradas dos Brace/Choir, mas os Mogway ou, num plano oposto, os Jesus and Mary Chain, ou os Doors, são também projetos que certamente terão passado bastante pelos ouvidos deste grupo, que toca um rock que tanto pode ter cor devido às aproximações indisfarçáveis que faz à pop mais melódica e de cariz épico, como se escuta em Biond, ou ter aquela toada mais vintage, feita com um baixo pulsante, um teclado psicadélico, uma distorção hipnótica e uma percussão vincada, aspetos típicos de uma psicadelia que nos remete para ambientes mais sombrios, como fica patente em Five Fingered Leaf ou na longa peça sonora orquestral que é Enemy's Friend, duas canções que, por si só, já fazem com que Turning On Your Double mereça uma audição atenta e integral. Espero que aprecies a sugestão...



01. Biond
02. Five Fingered Leaf

03. Enemy’s Friend
04. Fallmen
05. Be Let Down
06. Coil
07. Satisfier
08. 1 Is 2 



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