O que fazer quando um pai, que morreu demasiado cedo para nos lembrarmos dele, decide falar com o filho, através de uma carta escrita há onze anos? Esta é a experiência de Georg Roed, de quinze anos, quando a família descobre uma carta do seu pai. Através dela, ambos vão dialogar e manter aquela conversa de adultos que não puderam ter em vida.
Nessa carta, Jan Olav, o pai de Georg conta a sua busca por uma bela rapariga, que viu supostamente pela primeira vez, num eléctrico, carregada com um saco de laranjas. Nada o demove, nem o facto de não saber nada dela, inclusivé o nome! A partir desse dia vai procurá-la com todo o entusiasmo da juventude, enquanto imagina qual será o valor daquelas laranjas para a rapariga, laranjas essas que ele, desastradamente, fez rolar nesse primeiro encontro.

A arquitectura deste romance baseia-se então numa montagem de duas histórias paralelas, contadas por dois narradores diferentes, em duas épocas distintas, Georg e Olav. A narrativa centrada no jovem Georg, incide sobre as angústias típicas de um adolescente, neste caso o choque causado pela descoberta da carta do pai, o desvendar da personalidade paterna, através das emoções implícitas no seu discurso, juntamente com a angústia profunda de alguém cuja missão ficou apenas parcialmente cumprida. Por outro lado, a história de Jan Olav, o pai, é um conto de grande beleza, cuja narrativa se situa no início dos anos noventa, semanas antes da sua morte, regredindo também algumas décadas para contar o início da sua história de amor com a rapariga das laranjas. O discurso de Olav deixa adivinhar uma personalidade dotada de grande sensibilidade, um ser que atribui uma extrema importância aos afectos, algo que me marcou imenso neste livro. No final da carta o pai deixa uma pergunta filosófica para o seu filho responder: O que preferiria ele: uma passagem breve pela Terra cheia de felicidade, mesmo sabendo que um dia iria morrer ou recusaria a oferta logo à partida? Embora perante a situação vivida por Jan Olav a sua pergunta seja justificável, a minha resposta, depois de ler este livro, não mudou e ainda faz para mim mais sentido; Por amor, tudo vale a pena, não há impossíveis e as coisas boas que ele nos dá, todos os dias, fazem do Amor o sentimento mais belo que podemos gaurdar dentro de nós e o maior tesouro, seja por que tempo for! Quem ler este livro e sentir-se tocado por ele como eu me senti, concluirá que A Rapariga Das Laranjas, de Jostein Gaarder, é um hino à vida e aos mistérios insondáveis que ela muitas vezes encerra e que, no fundo, são o sal que a tempera. Foi o primeiro livro que li sem fazer qualquer pausa...
As histórias milaborantes que ele imagina sobre a Rapariga das Laranjas, a sua família, que profissão terá, onde mora, as suposições que levanta, são típicas de alguém profundamente apaixonado e que procura desesperadamente encontrar explicações com sentido, na ânsia de entender o que desconhece! Quando se ama desta forma poucos são os obstáculos considerados impossíveis de superar por quem sente e é isso que Olav pretende ensinar ao seu filho, com exemplos concretos e práticos de coisas que fez por essa rapariga, aquilo que correu e as viagens longas que fez só para a poder ver, o que teve de esperar para poder ficar com ela todos os dias!
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