Num ano pessoalmente atípico em termos de concertos e não só, sem dúvida que a escolha criteriosa dos mesmos está a revelar-se para mim, uma surpresa extremamente agradável.
Assim, ontem tive oportunidade de assistir e vibrar com um dos concertos da minha vida, dado por uma das minhas bandas de sempre, os belgas, naturais de Antuérpia, dEUS!
Conheci dEUS já um pouco tarde, em finais de 1997, graças a Instant Street, uma música muito fácil de se gostar, bastante alegre e de uma simplicidade verdadeiramente apaixonante, que se esborracha num final extasiante e verdadeiramente caótico, saída do aclamado The Ideal Crash, que incluí ainda The Magic Hour, e fecha com uma das minhas músicas do momento, Dream Sequence #1.
Nunca tinha ido ao Sá da Bandeira, mas já tinha excelentes referências do espaço, em especial no que diz respeito à acústica, apesar de, em tempos idos ter sido famoso na cidade do Porto por ser um local de projecção de filmes de "conteúdo e qualidade" duvidosa. Assim que entrei, senti-me invadido por um enorme sentimento de aconchego e conforto, uma atmosfera comprovadamente alternativa e underground; é uma sala verdadeiramente fantástica para eventos deste género e para bandas como os dEUS, pertencentes a um universo mais mainstream...
A primeira parte do concerto foi assegurada por uma banda que está a emergir no panorama nacional... Pontos Negros. Fiquei fixado no vocalista pois faz lembrar Thom Yorke, mas com cabelo mais comprido! Quanto à sonoridade... 4taste!
Já perto das 22 horas dá-se início à grande cerimónia de verdadeiro culto e devoção!
A reacção do público à entrada da banda em palco foi bastante entusiástica e percebeu-se imediatamente que iríamos todos viver uma grande noite! Afinal, numa sala tão pequena, quem ali estava era mesmo porque gosta desta banda, tendo certamente uma relação de grande culto e afinidade com ela. E também, convém não esquecer, é público o carinho e a devoção que esta banda tem pelo público português!
Tom Barman entrou logo em contacto com a audiência, com uma pose bastante provocante e sensual, agindo como um verdadeiro líder, provocante e agitador. No final do primeiro tema, interessado em saber o resultado do Futebol Clube do Porto - Dínamo de Kiev, não evitou um enorme e bem divertido e ruidoso fuck, talvez receando alguma hostilidade do público, ou menor entusiasmo deste pelo espectáculo, devido à frustração da derrota. Seja como for, o tremendamente irónico e provocador grito It's only the champions league!!!, foi o suficiente para deixar o público completamente desarmado, sorridente e pronto para esquecer as mágoas futebolísticas e preparar-se para quase duas horas de pura emoção!
A banda puxou pelo som até aos limites e tocou com uma fluídez e rigor impressionantes, mesmo nos momentos em que foi possível perceber alguma improvisação, sempre presente nos grandes concertos e a melhor forma de atestar a cumplicidade entre os elementos de uma banda. E estes dEUS, apesar de terem sofrido enormes transformações ao nível da formação, são compostos por músicos extremamente profissionais, rigorosos e que denotam uma grande cumplicidade entre si e gosto pelo som que tocam. A maior parte do alinhamento deste concerto foi constituído por músicas, de "in a bar under the sea", "the ideal crash", ou "worst case scenario", que não foram criadas, no seio dos dEUS, pela maioria dos actuais músicos, mas isso não fez com que o entusiasmo que eles colocam na performance, não seja o mesmo das músicas de "pocket revolution" e "vantage point".
Sem obedecer à ordem da playlist, estas foram algumas tocadas; é bem possível que omita alguma... Como é óbvio não perdi tempo a registar todas as músicas...
Photograph
Fell of The Floor, Man
Instant Street
Favourite Game
The Real Sugar
Architect
Nothing Really Ends
Smokers Reflect
Little Arithmetics
Serpentine
Suds & Soda
What We Talk About (When We Talk About Love)
Theme From Turnpike
Roses
Antes do encore registou-se um momento de tensão entre Tom Barman e o multi-instrumentista Klaas Janzoons, curiosamente os dois únicos sobreviventes da formação inicial; pessoalmente pareceu-me que o músico não estava preparado para Serpentine e que a mesma não fazia parte dos planos iniciais do concerto. Tom Barman contornou o sucedido, dirigindo-se ao microfone e soltando um hilariante we were having a bad meeting!! Seja como for, Klaas não evitou um ar enfadonho até ao final do concerto.
Faltou-me ouvir Dream Sequence #1, e também Disappointed In The Sun, The Magic Hour e Hotellounge (be the death of me). Mas, pessoalmente, quando se trata dos dEUS, só ficaria totalmente satisfeito se eles tocassem toda a discografia!
A banda acabou por demonstrar mais uma vez que é actualmente uma das melhores ao vivo, conforme já sucedia no final da década de 90, havendo quem considere que, se esta banda fosse britânica ou norte-americana, atingiria facilmente o estatuto de uns Radiohead ou uns REM, cujo vocalista, Michael Stipe, é um admirador confesso dos dEUS.
No final, como é fácil perceber, regressei a casa muito mais feliz!... E o Salaberth também....
Music still provides me the light I cannot resist!
Ainda não tive oportunidade de te dar os parabéns pelo blog! Escreves admiravelmente bem e quando leio os teus textos, como este sobre o concerto, parece que também estou lá a vibrar com a música :)
ResponderEliminarContinuação de muitos mais textos, concertos, novidades musicais e não só ;)
Beijinho
Bem, eu vi-os duas vezes esta semana mas confesso que tenho inveja e quereria estar também no porto. sinceramente às vezes fico parvo contigo, a Instant Street é a minha música favorita deles e a que me fez apaixonar pela sua obra. Acho que nunca encontrei ninguém cujos gostos musicais principais fossem tão coy paste dos meus como tu. Eu já fiquei parvo com a ideia do takk_iceland09 para a minha banda favorita ter surgido ao som do Boxer, cd favorito da minha outra banda favorita. enfim, isto é perturbante.
ResponderEliminarBom texto João...
ResponderEliminarContinua a reportar os concertos que vais... quase que também lá estive.
Abraço
Boas John!
ResponderEliminarSó n4ao fico completamente desapontado por não ter ido ao concerto por:
- faz parte de mim acompanhar o meu clube, principalmenet nos momentos dificeis;
- quase me sentir lá depois de ler o teu texto.
Parabéns, está um texto excelente, mais uma vez, com o entusiasmo que só tu colocas no que fazes.
Vi-os em Paredes de Coura e já achei fantástico, aí deve ter sido ainda mais intenso e intimista!
Vou contentar-me com o set do DJ Stipe e voltar a ouvi-los!
Um abraço,
Norberto