Se não for por mais nenhum motivo válido, dois mil e vinte e seis ficará invariavelmente na história por marcar o regresso dos míticos Dinosaur Jr. de J Mascis, Lou Barlow e Murph aos discos. Recordo que o trio natural de Amherst, no Massachusetts, gravou alguns álbuns míticos no século passado, nomeadamente nos anos oitenta e surpreenderam-nos a todos quando se reuniram novamente já neste século, há quase duas décadas, tendo editado desde então discos como Beyond (2007), Farm (2009), I Bet On Sky (2012), Give A Glimpse Of What Yer Not (2016) e Sweep It Into Space (2021), que se concentraram, naturalmente, em guitarras bastante eletrificadas e com uma identidade vincada, uma bateria frenética e um baixo sempre omnipresente, mesmo que não esteja na primeira linha da condução melódica e, o mais importante, numa jovialidade e numa luminosidade festivas que se saúdam e que atestam o habitual excelente humor e positivismo destes três músicos, nuance que se mantém em There Near, o décimo terceiro e novo disco dos Dinossaur Jr, que viu recentemente a luz do dia, pelas mãos da JagJaguwar.
Para quem estiver familiarizado com o catálogo dos Dinosaur Jr., a primeira ideia que transparece da audição inicial de There Near, é uma sensação óbvia de familiaridade. E esse é logo o primeiro grande elogio que se pode fazer ao disco e aos autores, em simultâneo. Um dos grandes atributos dos Dinosaur Jr. é a consistência no seio de um adn muito próprio, sui generis e caraterístico. E a base de fãs fiel que possuem revê-se exatamente nessa ideia de previsibilidade, ou seja, quem gosta deste projeto quer ouvir exatamente o som que ele sempre replicou. E, após nova audição mais cuidada, percebe-se que There Near é impressivo, milimétrico e inspirado no modo como nos oferece a habitual dose de guitarras distorcidas com riffs impactantes, uma bateria sempre envolvente e um baixo firme a acamar as canções que, desta vez, tiveram como pano de fundo um amplificador de mesa modelo Boogie MK 1, com meio século de vida e que Mascis resolveu trazer para a linha da frente no processo de produção e mistura de There Near.
Assim, temas como Several Got Away, uma canção vigorosa e incrivelmente aditiva, com uma aspereza, uma vibração e uma energia imponentes, ou Blowin’ Up, composição que mantém o foco num perfil sonoro garageiro, fogoso e abrasivo, não faltando cascatas de guitarras cheias de reverb e um baixo encorpado, mas com a voz agridoce de Barlow e uma opção melódica algo burilada e contemplativa a induzirem à canção um perfil ligeiramente emotivo e reflexivo, são excelentes exemplos de como poderá ser reconfortante para um admirador da banda, perceber que tem aqui mais um belo naipe de canções para satisfazer a sua gula relativamente aos Dinosaur Jr..
O travo grunge de Gone Off, canção em que os decibéis atingem uma ímpar magnificiência, Walk Me Back, um momento de inspiração melódica ímpar e Read The Room, uma composição com um curioso clima pop, rematam uma espécie de mini maratona auditiva elétrica reluzente, tocada por um verdadeiro power trio que, abrigando-se também à sombra de uma salutar crueza lo-fi, consegue, novamente, debitar harmonia e delicadeza, mesmo no meio da distorção. Espero que aprecies a sugestão...

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