Westside Cowboy - It Goes On

Oriundos de Manchester, os britânicos Westside Cowboy são a nova coqueluche do indie rock alternativo, um quarteto formado por Reuben Haycocks, Jimmy Bradbury, Aoife Anson-O'Connell e Paddy Murphy, que surgiu quase por obra do acaso, mas com a mesma história de muitas outras bandas que deixaram selo de qualidade e marca profunda na história da música, o meio universitário. Reuben, Aoife e Paddy conheceram-se  na universidade de Manchester, em dois mil e vinte e três e daí até terem contactado com Jimmy, funcionário da mítica loja de instrumentos local, Johnny Roadhouse, responsável pelo nome do grupo, inspirado nos comboys que no século passado alertavam os habitantes da cidade para a passagem dos cavalos de ferro, os comboios, foi um pequeno passo.

Feitas as apresentações, debrucemo-nos então no conteúdo de It Goes On, o disco de estreia destes Westside Cowboy. São pouco mais de trinta e cinco minutos divididos por onze extraordinárias canções que combinam, na perfeição, a herança do melhor indie rock alternativo independente norte-americano dos anos noventa, algo desleixado, cru e espontâneo, com aquele polimento charmoso tipicamente britânico. São, no fundo, canções algo despojadas e deliciosamente imperfeitas, sendo esse, desde logo, o principal elogio que se pode fazer a um álbum que vai, certamente, figurar em inúmeras listagens dos melhores registos deste ano.

Logo em Kick Stones (The Boys), uma bateria arritmada, a voz arrastada e declamativa de Reuben Haycocks, guitarras metálicas divagantes tocadas com implacável despreocupação e um baixo quase impercetível, vão crescendo em intensidade e arrojo e, logo aí, percebe-se a jovialidade e uma curiosa sensação de ausência de pose e de pretensão, detalhes típicos do melhor catálogo de bandas como Pavement, Giant Sand ou The Replacements, só para citar algumas influências que, logo nesse tema, nos parecem óbvias e que se saúdam.

Paperchains mantém ativo o modo rebuliço, mas com um maior protagonismo do baixo, em outra canção incisiva e direta, mesmo tendo em conta as suas variações rítmicas e de intensidade. Aqui, The Stooges ou os The Rolling Stones, assaltam desde logo a nossa mente. Já Dobro, amplifica a predominância do baixo, mas as guitarras ganham outro envolvimento melódico, numa canção plena de groove.

It Goes On prossegue e Well Done Kid, You Did It mantém a toada, numa canção que impressiona pelo modo como vai ganhando dinamismo, sendo o tema em que mais se evidencia a enorme capacidade interpretativa de Paddy aos comandos da bateria. Depois, se Worried Age é um oásis de hipnotismo rock, mais uma vez sempre a aumentar de intensidade até ao êxtase final, já Big Wheels impressiona pelo seu travo algo melancólico, enquanto disserta referências diretas a fenómenos famosos da cultura pop americana que se desvanecem à luz da América atual, sob o domínio de Trump e Musk, com Take My Leaving As I Love You a mostrar que os Westside Cowboy também conseguem partilhar dores e estados de alma à boleia de um portento de acusticidade delicioso. Pelo meio, Coyote coloca todas as fichas num perfil eminentemente progressivo, com a permanente tensão entre bateria e baixo, por um lado e as guitarras, pelo outro, a oferecerem ao ouvinte um curioso duelo entre ritmo e melodia, com fronteiras e regras bem definidas, mas apenas até a um certo pronto, como se exige num extraordinário instante de indie rock alternativo.

Poderiam ser feitas análises e referências mais exaustivas às restantes canções de It Goes On, mas parece-me que, até este ponto, já ficou claro para o ouvinte o que o espera, caso opte pela audição de um disco cheio de letras aparentemente incompreensíveis, mas que tocam em muitas feridas que assolam o mundo de hoje, mais do que as habituais lamúrias sobre relacionamentos falhados, ou as dificuldades inerentes à entrada na vida adulta. Mais do que o virtuosismo técnico ou artístico destes quatro músicos, deixa-nos boquiabertos a inegável conexão e dinâmica que exalam, incluindo na visão artística que comungam e, através dela, na forma como contemplam o mundo em que vivem e se expressam nele e inspirados por ele.

Produzido por Loren Humphrey e com a chancela da Island Records, It Goes On é, em suma, uma visão revigorante, fresca e incrivelmente aditiva de um formato sonoro já com quatro décadas de vida, mas que tem ainda, felizmente, muitos ângulos e formas de abordagem nos dias de hoje, que podem deixar marcas qualitativas firmes e adicionar novos nomes à listagem dos melhores intérpretes de sempre do melhor género sonoro que existe, o indie rock alternativo. Espero que aprecies a sugestão...

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