Widowspeak - Roses

Quase seis anos depois de Plum, um dos melhores discos de dois mil e vinte para a nossa redação e quatro de The Jacket, o registo sucessor, que tinha dez canções que nos contavam a odisseia fictícia de uma banda que queria sair da sua zona de conforto, que assentava em pequenos concertos baseados em covers, para passar a apostar na escrita e composição de originais, os Widowspeak estão de regresso aos lançamentos discográficos em dois mil e vinte e seis com Roses, um alinhamento também com dez temas, que tem a chancela da insuspeita Captured Tracks.

Pic by Alexa Vicious

Este novo registo da dupla formada pela cantora e escritora Molly Hamilton e o guitarrista Robert Earl Thomas, dois músicos com raízes em Tacoma e Chicago, mas estabelecidos na cidade que nunca dorme há já algum tempo, foi gravado na ilha de grega de Hydra e misturado nos Estados Unidos. O seu conteúdo mantém-se fiel à habitual sonoridade do projeto, sempre mestre, disco após disco, na arte da personificação de um som inconfundível em que eletrónica, pop, folk e rock se confundem com um inebriante charme, muitas vezes até ostensivo.

A vida mundana e, em especial, o conceito de romance e tudo aquilo que está associado a esta virtude, quando vivida em plenitude, é uma das ideias chave de Roses, um registo efervescente no modo como apela ao nosso lado mais fantasioso e carnal. Entre sensualidade e melodramatismo, o registo vai evoluindo, ao longo da sua escuta, com o ambiente cinéfilo superlativo de Wondering, uma canção cantada a partir da perspetiva de uma empregada de mesa encarnada por Hamilton, ou No Driver, composição que descreve uma fuga de um carpinteiro num carro, interpretado por Thomas, a serem dois bons exemplos desta ideia de representação através da música. A relação constante entre estas duas figuras fictícias torna, canção após canção, a tensão entre o mundo material real e o cosmos fantasioso ainda mais convincente. O amor e os devaneios são um refúgio da loiça suja e das contas em atraso.

If You Change, uma lindíssima canção, com uma estética suave e nostálgica, em que cordas vibrantes se vão sobrepondo com luminosidade, acamadas por uma secção rítmica sóbria, é outro momento nevrálgico em Roses, assim como Soft Cover, canção que versa sobre a força do amor e o modo como esse sentimento pode dominar, por completo, a vida de dois amantes. Sonoramente esta é, talvez, a composição mais bela do cardápio, já que se trata de um belíssimo tratado de indie folk rock, com um baixo vigoroso a acamar cordas vibrantes e com um curioso travo jazzístico e uma bateria exemplarmente arritmada, num resultado final charmoso, gracioso e envolvente.

Entre a franqueza de Hourglass e o humor irónico de Unchained Melody, fecha-se a cortina de um cardápio sonoro essencialmente orgânico, que é complementado por alguns entalhes sintéticos quase impercetíveis, num jogo de cintura eficaz entre sintetizadores e guitarras. O resultado final é gracioso e coloca os Widowspeak e este seu disco Roses em declarado ponto de mira, como uma das obras sonoras de maior relevo de dois mil e vinte e seis. Espero que aprecies a sugestão...

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