Dois anos após Stung!, um disco que colocou os Pond de novo voltados para ambientes sonoros que colocaram as cordas como sustento importante, mas num plano menor, nomeadamente ao nível dos arranjos e dos adornos, cabendo aos sintetizadores e aos teclados o papel principal no que concerne ao arquétipo das suas catorze composições, quer rítmico, quer melódico, a banda liderada por Nick Allbrook, baixista dos Tame Impala, está de regresso ao formato longa duração com Terrestrials, o décimo primeiro álbum do grupo, um disco que tem a chancela do consórcio Mangovision/Secretly Distribution.
Terrestrials versa, de acordo com os Pond, sobre a apetência da nossa espécie para a busca do caos e da destruição, mesmo sendo aquela que tem maior apetência para amar, de entre todas as que habitam o nosso planeta e o tema homónimo, uma composição com um ritmo frenético, expansivo e robusto, começando com uma guitarra vibrante, que recebe depois diversos entalhes sintéticos com a habitual assinatura cósmica que define o adn Pond, é um excelente exemplo do propósito filosófico de um disco repleto de guitarras ensolaradas e crocantes e sintetizadores pulsantes e ardilosos, exímios em Skyworks, que conta histórias sobre pessoas e lugares, enquanto amplia a já habitual busca dos Pond pelo puro experimentalismo, feita com liberdade plena e livre de qualquer condicionalismo editorial que pudesse influenciar o processo criativo do grupo.
Canções com nomes de minerais, de plantas e de locais icónicos da paisagem australiana, são imagens de marca de um disco que narra a vida de pessoas que sobrevivem da extração de alguns recursos naturais. A acelerada e estridente Casuarina, por exemplo, é uma canção que alude à árvore She-Oak (casuarina), enquanto critica duramente a magnata australiana da mineração Gina Rinehart. Já Two Hands, é uma composição inspirada, de acordo com o próprio Nick Allbrook, na explosão do desfiladeiro de Juukun, na cordilheira de Hammersley, na Austrália, causada pela mineradora Rio Tinto, um evento que destruiu abrigos rochosos sagrados de grande importância arqueológica, cultural e espiritual. Sonoramente, Two Hands é uma composição imponente e opulenta, com todos os ingredientes típicos daquele rock psicadélico robusto e expansivo, repleto de cascatas de distorções abrasivas e fulminantes, rematado por inebriantes detalhes sintéticos cheios de fuzz e de acidez. Importa também escutar com atenção Through The Heather, tema que tem a sua génese em algumas experimentações sonoras levadas a cabo pelo baterista da banda James Ireland e depois aperfeiçoadas por Jay Watson. O resultado final não defrauda o habitual adn dos Pond, já que o tema assenta numa vasta e robusta pafernália instrumental orgânica e sintética, rica em texturas e entalhes das mais diversas proveniências e, mesmo oferecendo ao ouvinte um ritmo frenético e dançante, contém uma indisfarçável áurea de melancolia e intimismo.
O baixo envolvente de The Fatal Shore e a subtileza acústica de Roebuck Plains, são outros instantes obrigatórios de um registo que estão tão imerso em detalhes locais e ambientais que, para a sua escuta plena, é obrigatório destrinçar detalhadamente as letras de todas as suas canções, numa espécie de tarefa extra, que também nos permite descobrir exemplos imponentes de resiliência e resistência, numa espécie de ode a uma Austrália com uma identidade muito própria e onde a natureza tem um papel central. Espero que aprecies a sugestão...

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