Já está nos escaparates Daisy, o terceiro registo de originais de um projeto a solo chamado Jaguar Sun, com origens em Ontário, no Canadá e encabeçado pelo multi-instrumentista Chris Minielly. É um músico que navega nas águas serenas de uma indie pop apimentada por paisagens ilidíacas e que começou por impressionar esta redação no verão de dois mil e vinte com This Empty Town, o disco de estreia, um trabalho que teve sucessor no ano seguinte, um álbum com onze canções intitulado All We've Ever Known e que tinha a chancela da Born Losers Records.
Daisy são quase trinta minutos divididos por onze canções que nos inebriam. É um intenso e revigorante cocktail sonoro, perfeito para estes dias que clamam pelo espraiar dos sentidos, sem exigir demasiado da nossa audição, mas sem deixar que ela se sinta feliz pelo que lhe proporcionamos. O registo expande discretamente, mas om astúcia, o catálogo sonoro de Jaguar Sun, que vive cada vez mais num limbo perfeito entre indie pop de primeira água, o indie rock clássico e algum experimentalismo, ficando para trás um perfil interpretativo que tinha muitas vezes o lo-fi como marca identitária, para apostar em atmosferas mais polidas, amplas, espaçosas, fluídas e abrangentes, sem deixar de lado aquele travo intimista e sensível que será sempre um carimbo indelével da música deste projeto.
De facto, Daisy impressiona pelo modo como certos detalhes saltam ao nosso ouvido, com destreza e sem pudor. Não há ruturas abruptas nem mudanças drásticas, relativamente ao que está para trãs, mas uma textura que cintila sob a superfície, um timbre de guitarra que se curva ligeiramente para além do esperado, uma estrutura que evita gentilmente a previsibilidade, são elementos que sobressaem e que recompensam uma audição cuidada e dedicada.
No Turning, a composição que abre o alinhamento do disco, intensa e impressiva, assente em faustosas sintetizações, em que se destaca uma batida frenética hipnótica, trespassada por um vasto conjunto de efeitos, alguns algo cavernosos e outros de pendor eminentemente cósmico, é um bom exemplo desta nova abordagem mais madura e ponderada. It Takes Time, o quarto tema do alinhamento de Daisy, contém um cariz mais lisérgico e contemplativo, mas não deixa de ser exuberante no modo como abraça várias camadas de sintetizações que, entre o retro, o cósmico, acamam na perfeição o timbre metálico insinuante de uma guitarra dedilhada com enorme astúcia. Depois, em jeito de contraponto, My Friend oferece-nos um luminoso e inquietante tratado de indie folk rock, sustentado por cordas acústicas vibrantes, que são exemplarmente acompanhadas, um pouco mais tarde, por uma guitarra abrasiva, num resultado final que é algo inédito tendo em conta o catálogo de Jaguar Sun, mas que se saúda, até porque reforça o já habitual clima psicadélico das suas criações.
Estes são alguns dos momentos obrigatórios de um álbum que sobressai pela sua simplicidade natural e pelo seu perfil orgânico e acessível, que atrai o ouvinte para dentro em vez de o projetar para fora, até porque, conduzindo o ouvinte através de uma atmosfera consistente que se vai aprofundando com o tempo, se escuta como se fosse um fluxo constante, quase meditativo, criando uma sensação que é ao mesmo tempo reconfortante e ligeiramente excêntrica. Cada audição de Daisy revela novas camadas e pequenos detalhes que remodelam silenciosamente a experiência, confirmando que estamos perante um projeto já perfeitamente consolidado no panorama indie e alternativo contemporâneo. Espero que aprecies a sugestão...

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