Natural do condado de Staffordshire, na Inglaterra, Benjamin Thomas Holton é a mente brilhante por trás do projeto My Autumn Empire e Dreams Of Death And Other Favourites o seu novo registo discográfico, um álbum lançado no início do passado mês de novembro e mais uma obra conceptual de um autor que gosta de se debruçar sobre uma determinada temática e torná-la transversal a cada novo alinhamento de canções que apresenta. Se The Visitation, o disco anterior, era inspirado em imagens televisivas, na complexidade das relações humanas e no imenso espaço sideral, tantas vezes o maior ponto de encontro de imensos dos nossos sonhos, este Dreams Of Death And Other Favourites mantém o contexto espiritual, virando agulhas para a temática mais densa da morte, não como o ocaso infalivel ao qual ninguém escapa, mas fazendo parte do percurso que cada um de nós trilha neste universo, em determinado hiato espacial e temporal, cujo fim ninguém conhece ou alguma vez testemunhou com clareza.

Cheio de cordas exuberantes, acordes magistrais e uma extrema sensibilidade melódica que The Following, o tema de abertura, desde logo demonstra, caraterísticas que se aliam a um Hotlon vocalmente sumptuoso e delicado, Dreams Of Death And Other Favourites é um belíssimo tratado de indie folk, um disco que transborda uma imensa sinceridade e onde o autor compôs não só de modo a espicaçar a nossa mente para a temática da morte, do que está para além dela e da vida como algo curto e passageiro e que, por isso, merece ser apreciado e aproveitado ao máximo, mas também escrevendo um conjunto de letras e versos que transbordam modernidade e uma sensação de quotidiano e normalidade, onde não faltam as angústias do amor não correspondido, intensamente óbvias no telefone que não toca em Death Song ou nas sensações etéreas descritas por uma espécie de fantasma que se confessa na formosa e delicada The Beautiful Golden.
Com um pé na folk e outro na pop e com a mente também a convergir para um certo experimentalismo, típico de quem não acredita em qualquer regra na busca pela perfeição, Benjamim entregou-se então à introspeção e refletiu sobre a inevitável perca do outro, que pode ser não só o adeus físico mas também a ausência espiritual de quem ainda respira junto de nós mas já não vive afetivamente connosco, não poupando na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora.
Com momentos que apelam à folk pop melancólica mais negra e introspetiva, também não faltam ritmos e batidas feitos com detalhes da eletrónica, presentes não só na já referida The Beautiful Golden, mas também nos ecos e nos efeitos que planam em redor da viola que conduz Garden Echoes. Seja como for, tal opção por uma produção crua e algo rugosa, impregnada com ruídos constantes e uma névoa sonora incontida, nunca coloca em causa a faceta eminentemente acústica de um disco que à medida que escorre pelos nosso ouvidos, nos oferece uma altruísta beleza utópica, feita de belas orquestrações que vivem e respiram lado a lado com relatos de sentimentos e dores comns a qualquer mortal que preza essa sua caraterística e, por causa dela, procura tirar o maior proveito possível da sua existência, podendo fazê-lo embalado por estas oito canções que parecem emergir de um sono profundo e que ao ganharem vida se convertem num portento de sensibilidade e optimismo, a transbordar de amor, o mesmo amor sincero e às vezes sofrido, com que todos nós contatamos pelo menos uma vez na vida.
Da viola que se deixa dominar e permite ser dedilhada sem contemplações ao longo de todo o trabalho, passando pelos arranjos de cordas, pianos, efeitos e vozes, em Dream Of Death And Other Favourites tudo se movimenta de forma sempre estratégica e sumptuosa, como se cada mínima fração do disco tivesse um motivo para se posicionar dessa forma. A constante sobreposição de texturas e sopros criam um sepulcro imenso e ilimitado de possibilidades, um refúgio bucólico dentro da amálgama sonora que sustenta a música atual e que tem também como trunfo maior uma escrita maravilhosa. Quando este disco chega ao fim ficamos com a sensação que acabou-nos de passar pelos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que, por tudo isso, deixou marcas muito positivas e sintomas claros de deslumbramento perante a obra. Espero que aprecies a sugestão...

01. The Following
02. Death Song
03. Forcefield
04. Black Shape
05. The Beautiful Golden
06. Garden Echoes
07. Murrain
08. Willows In The Close
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