Editado a dez de março por intermédio da Merge Records, Policy é o primeiro disco a solo do canadiano Will Butler, uma das peças fundamentais da engrenagem do rock chamada Arcade Fire e figura de relevo do universo sonoro indie, que confessa ter-se inspirado para esta estreia na tradição musical de nomes tão importantes como os Violent Femmes, The Breeders, The Modern Lovers, Bob Dylan, Smokey Robinson, The Magnetic Fields, Ghostface Killah e John Lennon.
Acordes de guitarra com um elevado cariz funk e uma indelével assinatura impressa com o rock de garagem presleyano feito com uma forte pitada de blues é o grande sustento de Take My Side, o tema que abre um disco gravado apenas numa semana na sala de estar de Jimi Hendrix, por cima dos conceituados Electric Lady Studios e com a participação de outros artistas, nomeadamente Jeremy Gara, que já tinha assumido a bateria em Reflektor, o último álbum dos Arcade Fire, voltando-o a fazer aqui e emprestando também a sua voz em alguns temas.
Depois dessa abertura eloquente, rugosa e inebriante, ao sermos invadidos pelos teclados sintetizados, a batida firme, o trompete indiscreto e o piano desmazelado que definem o arquétipo glam chic de Anna, ficamos imediatamente convencidos do elevado nivel qualitativo de Policy, um disco que funciona como uma ode mística, encantadora e clássica ao catálogo da história do rock nos últimos trinta anos, visitando a obra dos gigantes acima citados, mas também de Elvis Presley, Bruce Springsteen, David Bowie, todos veteranos do mesmo mosaico declarado de referências e até os contemporâneos Parquet Courts, uma banda que Will deve ter ouvido com particular atenção nos últimos tempos.
Se as guitarras são um dos pratos fortes de Policy e andam por ali, sempre debaixo do braço, geralmente eletrificadas, mas com excelentes momentos acústicos, como em Son Of God, o tema que juntamente com a batida de Anna, mais remete Policy para a herança dos Arcade Fire. Depois, o groove e a distorção da guitarra de Something's Coming seduz e faz estremecer o nosso lado mais libidinoso, mas sem ser necessário colocar a bola vermelha, asim como em What I Want, canção que numa simbiose entre garage rock, pós punk e rock clássico, contém a sonoridade crua, rápida e típica que resvala para um final épico e pleno de exaltação.
Neste disco as cordas acabam por não ter o protagonismo principal e já era expetável que Butler colocasse o piano no cardápio com a função de conduzir melodicamente a maioria das canções. A previsão concretizou-se e os teclados mostram-se particularmente delicados e brilhantemente ingénuos e sedutores em Sing To Me, com a balada Finish What I Started a oferecer-nos um Butler de smoking aprumado, íntimo e profundo, de peito aberto para o mundo, cheio de imagens, metáforas e mistério.
O disco termina com o transe melódico explícito de Witness, uma atmosfera sonora que não chega a sair do limiar dos sonhos, mas que apresenta as diferentes texturas sonoras que carregam a epifania sonora de Butler, assente num turbilhão de emoções que vivem em perfeita sintonia com o espírito de um músico com uma vitalidade imparável.
Em Policy, Will Butler estabelece-se comodamente numa zona de conforto onde se sente como peixe na água, mas não se coibe de colocar o pé de fora e de calcorrear outros universos sonoros adjacentes ao indie rock alternativo que marcou os anos noventa e que podem ir da psicadelia, ao punk rock e ao próprio blues. A verdade é que ele parece disposto a lutar com garra e criatividade para empurrar e alargar as barreiras do seu som, ao longo de cerca de trinta minutos intensos, rugosos e que são, obviamente, um dos destaques discográficos de 2015. Espero que aprecies a sugestão...
01. Take My Side
02. Anna
03. Finish What I Started
04. Son Of God
05. Something’s Coming
06. What I Want
07. Sing To Me
08. Witness

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