Oriundos de Issaquah, nos arredores de Washington e já com mais de duas décadas de carreira, os Modest Mouse de Isaac Brock, Eric Judy, Jeremiah Green, Johnny Marr, Tom Peloso e Joe Plummer, acabam de interromper um hiato de sete anos com Strangers To Ourselves, a sua nova obra prima, um compêndio de quinze aditivas canções, que viu a luz do dia a três de março último através da Epic Records e o primeiro álbum da carreira deste grupo após o extraordinário We Were Dead Before The Ship Even Sank (2007).
Os Modest Mouse carregam já uma aúrea intensa e justa, que faz deles referência importante e foco de atenção cada vez que dão um sinal de vida musical, devido a uma carreira longa e qualitativamente elevada e que os marcou como um dos nomes fundamentais da cultura musical do novo século. Já o sexto álbum do cardápio do grupo, Strangers To Ourselves é uma verdadeira jornada sentimental e realística pelos meandros de uma américa cada vez mais cosmopolita e absorvida pelas suas próprias encruzilhadas, uma odisseia heterogénea e multicultural oferecida por um projeto visionário que encarna atualmente um desejo claro de renovação, explorando habituais referências dentro de um universo sonoro muito peculiar e que aposta na fusão de rock, com a pop, a country, a soul e o funk, de uma forma direta, mas também densa, sombria e marcadamente experimental.
É evidente a sensação de prazer que qualquer conhecedor profundo da carreira do grupo sente ao escutar este trabalho e acaba por ser natural expressarmos aquilo que sentimos acerca de Strangers To Ourselves, exalando uma excitante sensação de alívio, porque se mantém intocável a vontade e a capacidade criativa dos Modest Mouse para a renovação constante do seu ambiente particular, sem colocar em causa aquelas permissas essenciais que identificam e tipificam o som específico do grupo. Em Strangers To Ourselves e logo no tema homónimo, está lá o esplendor das cordas, firmado pelo violino e pelo dedilhar ocasional da viola, mas os arranjos de metais inéditos e outros recursos sonoros de cariz geralmente sintético, exprimem um novo modo como a banda olha para as tendências atuais mais bem aceites pelo público. Of Course We Know, o fabuloso tema que encerra o trabalho, acaba por ser o auge desta evidencia, pela forma como os Modest Mouse exploram nessa canção uma ligação estreita entre a psicadelia e o rock progressivo, através de um sentido épico pouco comum na banda mas com resultados práticos extraordinários.
Mas são outros mais e imensos os exemplos do modo como os Modest Mouse em vez de se fecharem no seu próprio casulo, parecem estar muito atentos à realidade atual, enquanto se mostram particularmente inspirados e num elevado nível qualitativo na visão caleidoscópica que plasmam em Strangers To Ourselves do indie rock atual. O cariz sintético da percussão que dá vida à alegoria funk pop Pistol (A. Cunanan, Miami, FL. 1996), um tema que mostra a visão atual do grupo sobre a problemática do uso e porte de armas de fogo e que não receia abusar dos detalhes eletrónicos e dos tais detalhes metálicos é outro sinal claro desse avanço, que a riqueza dos arranjos sombrios de Shit In Your Cut, o ambiente western country de God Is An Indian And You’re An Asshole, ou as guitarras e a percurssão orgânica de Coyotes também evidenciam.
O ambiente sonoro empolgante e ritmado e a secção de sopros do instrumental The Ground Walks, With Time In A Box e o som de fundo orquestralmente rico de Ansel, assim como o clima descontraído do efeito da guitarra que deambula por Pups to Dust, são mais outras tentativas bem sucedidas de oferecer algo de inovador, que o piano empoeirado e os sopros da balcânica Sugar Boats, ou a estreita relação entre guitarras carregadas de fuzz e teclados vintage de Wicked Campaign e de Be Brave claramente reforçam, ao mesmo tempo que salvaguardam alguns dos melhores detalhes da herança sonora do grupo.
Num álbum heterógeneo onde se cruzam diversos espetros sonoros com impressionanete bom gosto e onde um certo caos, sempre controlado e claramente ponderado, rico, exuberante e impecavelmente produzido, os Modest Mouse oferecem-nos quinze canções que borbulham um forte sinal de esperança e de renascimento, sementes que vão provavelmente conquistar para o grupo novos públicos. Espero que aprecies a sugestão...
01. Strangers To Ourselves
02. Lampshades On Fire
03. Shit In Your Cut
04. Pistol (A. Cunanan, Miami, FL. 1996)
05. Ansel
06. The Ground Walks, With Time In A Box
07. Coyotes
08. Pups To Dust
09. Sugar Boats
10. Wicked Campaign
11. Be Brave
12. God Is An Indian And You’re An Asshole
13. The Tortoise And The Tourist
14. The Best Room
15. Of Course We Know

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