Editado a três de fevereiro pela Tricycle Records, A Place Of Long Years é o novo álbum dos The Union Trade, uma banda de São Francisco, na Califórnia, formada por Don Joslin (guitarra), Nate Munger (baixo, voz), Eric Salk (guitarra, piano) e Rhodes Eitan Anzenberg (bateria). A gravação deste disco contou com as contibuições de Nate Blaz dos Geographer e Ann Yu dos Silver Swans, um trabalho conceptual que explora as fronteiras do físico e do psíquico e das transferências de energia que, no ser humano, se estabelecem entre estas duas componentes e o modo intrincado como nos relacionamos com aquilo e aqueles que nos rodeiam, servindo-nos de todo o nosso ser em toda a sua plenitude, competência, capacidades, habilidades e dimensões. Com esta ideia no pensamento os The Union Trade criaram uma coleção de dez paisagens sonoras etéreas e contemplativas, impecavelmente produzidas, reveladoras de uma sobriedade sentimental que acaba por servir de contraponto a uma sonoridade algo sombria, mas onde geralmente nenhum instrumento ou som está deslocado ou a mais, uma conjugação entre exuberância e minimalismo que prova a sensibilidade dos The Union Trade para expressar pura e metaforicamente as virtudes e as fraquezas da condição humana.
O som experimental, psicadélico, barulhento e melódico que este quarteto nos oferece atiça todos os nossos sentidos, provoca em nós reações físicas que dificilmente conseguimos disfarçar e, contendo belíssimas texturas, que não se desviam do cariz fortemente experimental que faz parte da tal essência do grupo, trespasssam sempre o nosso âmago, fechando-nos dentro de um mundo muito próprio, místico e grandioso, onde tudo flui de maneira hermética e acizentada, sempre sustentado por uma base instrumental plena de nuances variadas e harmonias magistrais, onde a matriz sonora se orienta de forma controlada, como se todos os protagonistas materiais, quer orgânicos, quer sintéticos, que debitam notas musicais, fossem agrupados num bloco único de som.
Com uma sonoridade ampla e quase sempre eloquente e grandiosa, há mesmo instantes em que existe aquela sensação curiosa, mas estranha, de a própria música parecer fugir um pouco ao controle de quem a cria e ganhar vida própria, como é o caso de The Empire Giants, ou de quando a voz surge em Sailing Stones. Aliás, um dos atributos deste disco é a elevada heterogeneidade instrumental, dentro de uma matriz estilística bem definida, tipicamente lo fi, com a percurssão e as cordas, que, por exemplo, em Murmurations atingem um climax ruidoso particularmente visceral, mas sempre controlado, a reproduzirem efeitos bastante sedutores e luminosos,que criam ambientes intimistas e expansivos, mas sempre acolhedores, dentro de uma toada mais orgânica, ruidosa e visceral. Esta canção, um dos singles já retirados de A Place Of Long Years, progride e expande-se partindo de horizontes algo minimalistas e quando se eleva o volume dos instrumentos como um todo e temos aquela explosão que dá a cor e o brilho que nos faz levitar, então esvai-se qualquer receio e torna-se firme a sensação que acabou de passar pelos nossos ouvidos algo muito bonito, denso e profundo e que, por tudo isso, deixou marcas muito positivas e sintomas claros de deslumbramento.
É deste cruzamento espectral e meditativo que A Place Of Long Years vive, com canções algo complexas, mas bastante assertivas e reféns de uma implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica, com uma amplitude etérea que nos permite aceder à dimensão superior onde os The Union Trade nos sentam e que o efeito da guitarra e o magnífico piano da já citada Sailing Stones tão bem clarifica. Depois, em Drakes Passage, canção onde o esplendor da vertente acústica das cordas tem o seu momento alto, é possível apreciar a junção do cariz mais rugoso do rock alternativo, com outros espetros sonoros, mais progressivos e experimentais, algo que a imponente e bizarra Svalbard também nos oferece em forma de roleta russa, numa banda que não se deixa enlear por regras e imposições herméticas. Bom exemplo disso são também os quase seis minutos de Dead Sea Transform, mais uma canção cheia de detalhes preciosos, com destaque para o dedilhar inicial da guitarra e que parece funcionar como uma sobreposição da linha melódica que o piano cria, provando que neste disco tudo se movimenta de forma sempre estratégica, como se cada mínima fração do projeto tivesse um motivo para se posicionar dessa forma.
Ao mesmo tempo em que é possível absorver esta obra como um todo, entregar-se aos pequenos detalhes que preenchem A Pace Of Long Years é outro resultado da mais pura satisfação, como se os The Union Trade projetassem inúmeras possibilidades e aventuras ao ouvinte em cada canção, num resultado final que impressiona pela beleza utópica das composições, assim como as belas orquestrações, que vivem e respiram, lado a lado, com distorções e arranjos mais agressivos.
Disco muito coeso, maduro, impecavelmente produzido e um verdadeiro manancial de melodias lindíssimas, A Place Of Long Years é um óbvio tiro certeiro na carreira desta banda de São Francisco. Espero que aprecies a sugestão...
01. Mineral King
02. The Empire Of Giants
03. Sailing Stones
04. Drakes Passage
05. Marfa Lights
06. Murmurations
07. Svalbard
08. Strangers And Names
09. Dead Sea Transform

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