
Oakland, nos arredores de São Francisco, é um nicho atualmente bastante em voga no universo sonoro alternativo norte americano e Sam Weiss uma das figuras mais emblemáticas do meio local. Antigo membro de bandas como os Pure Bliss, Violent Change, ou os Mall Walk, juntou-se há alhuns meses a Ray Seraphin (Talkies, Violent Change) and Nick Clark (Mall Walk), para formar os Stalls, um novo projeto impregnado por um manancial de efeitos e distorções alicerçadas em trinta anos de um indie rock feito, neste caso, com guitarras bastante inspiradas e um enorme bom gosto e que se estreou no último dia vinte com Stalls, um EP homónimo, através da Vacant Stare Records.
Obscuros e melancólicos, mas plenos de energia e focados numa enorme dedicação à causa, estes Stalls não complicam na altura de exaltar o retro, mesmo que nos dias de hoje exista já alguma saturação relativamente ao vintage e são um claro exemplo de que quando a música é boa, esse tipo de projeções e comparações tornam-se inócuos e a data da gravação pouco importa, sendo apenas um mero detalhe formal sem qualquer valor.
Logo no baixo e no fuzz e no efeito metálico da guitarra de Cola percebemos claramente que estes Stalls são uma banda que tem colado a si, como seria de esperar, o indie rock de cariz mais alternativo e que aposta no revivalismo de outras épocas, nomeadamente os primórdios do punk rock mais sombrio que fez furor nos finais da década de setenta e início da seguinte. O próprio registo vocal grave e lo fi de Weiss, com um efeito ligeiramente em eco e com todas as sílabas a serem soletradas com particular vigor, aponta no sentido de uma certa herança glam, ampliada por uma postura autoritária e segura.
Em Paradise o ritmo abranda um pouco, mas mantem-se o vigor do baixo e o fuzz de uma guitarra mais blues, criando uma atmosfera contemplativa, com uma forte vertente experimental nas guitarras e uma certa soul na secção rítmica. O single Tooth And Nail traz de volta aquele efeito metálico com uma tonalidade vincada e, num registo mais punk, fica plasmada toda a crua visceralidade de um trio que sabe como manipular os nossos sentidos, fazendo-nos facilmente dançar, até perdermos o fôlego e deixarmos o nosso corpo esvair-se num misto de agonia e boa disposição.
Até ao final, Miasma of Love pisca o olho ao rock mais experimental e progressivo, devido à ruidosa imponência da guitara e um Sam Weiss que parece cantar diretamente do fundo das trevas, enquanto jura vingança a quem teve a coragem de não permitir a expiação dos seus pecados, numa canção que ilustra o quanto certeiros e incisivos os Stalls conseguiram ser na replicação do ambiente sonoro que escolheram.
Stalls encerra com Cage, o instante mais pop, épico e melancólico do EP, uma canção com uma limpidez e um acerto melódico pomposo e luminoso que projeta os Stalls para uma toada mais épica e aberta e que demonstra a capacidade eclética do grupo em compôr boas letras e oferecer-lhes belíssimos arranjos, sempre assentes num baixo vibrante adornado por uma guitarra jovial e pulsante e com alguns dos melhores efeitos e detalhes típicos do rock alternativo e do indie punk vintage mais sombrio. Espero que aprecies a sugestão...
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