A Jigsaw - No True Magic

Os A Jigsaw de João Rui e Jorri  andam por cá há mais de uma década e gostam de nos deixar no limbo entre o sonho feito com a interiorização da cor e da alegria sincera das suas canções e esta realidade às vezes tão crua que eles também sabem tão bem descrever, enquanto embalam os nossos ouvidos com simples acordes, várias vezes dispostos em várias camadas sonoras, com uma naturalidade que impressiona os mais incautos, à semelhança da naturalidade com que a nossa realidade encaixa na melodia das canções.



No True Magic é a mais recente obra prima dos A Jigsaw, um disco particular, que deve também ser admirado tendo em conta a parte lírica; todas escritas em inglês, as canções são pequenas narrativas, algumas delas algo inusitadas e com uma lógica que aparentemente procura suscitar o aparente e o impossível.


No True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. Pareceu-me então que No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística e que a beleza das texturas sonoras que o trabalho contém provocam a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente.



De acordo com o press release do lançamento, em 1817, o poeta e filósofo Samuel Taylor Coleridge cunhou o termo “willing suspension of disbelief” que na abordagem da literatura permitiria ao leitor a suspensão do julgamento da implausibilidade de uma determinada narrativa. Com este álbum, os a jigsaw aceitam que a religião é, frequentemente, o melhor refúgio e abrigo que encontramos para ficarmos face a face com a receita mais indicada para o convivio com essa certeza, ao memso tempo que nos dão pistas sobre como aceitarmos os termos da nossa mortalidade.


Em No True Magic, os A Jigsaw souberam, mais uma vez, convocar um excelente elenco de músicos e formar uma verdadeira orquestra folk que se aperaltou com a melhor farpela e subiu ao cimo daquele estrado de madeira, com algumas ripas rachadas, mesmo ali ao lado de um balcão onde escorre o melhor néctar do Tenessee, condenado a descer por gargantas secas e protegidas com lenços empoeirados e marcados por uma vida de perigos e demandas. Alimentam e o aquecem o ambiente em redor apostando numa fusão de elementos da indie, da pop e da folk, que dão vida a melodias luminosas, feitas com cordas delicadas e arranjos particularmente deslumbrantes e cheios de luz, amiúde dominados também por instrumentos de sopro e por metais, que criam paisagens sonoras bastante peculiares.


Em onze composições sonoras carregadas de texturas, criadas através da justaposição de diferentes camadas de instrumentos e sons, podemos saborear uma conjugação com um elevado cariz contemporâneo e atual, apesar do forte revivalismo que a música dos A Jigsaw transporta sempre consigo. O resultado final é, como esta dupla já nos habituou, verdadeiramente vibrante e com uma energia bastante particular, numa banda que parece não querer olhar apenas para o universo tipicamente folk, mas também abraçar, através de alguns traços sonoros caraterísticos, as facetas mais soul e blues do próprio indie rock.


Se no tema homónimo ficamos imediatamente convencidos e conscientes do irrepreensível charme que nos espera e que seduz pela forma genuína e simples como os A Jigsaw lidam com os nossos medos e fantasmas, enquanto retratam eventos e relacionamentos de um quotidiano rotineiro, a folk adoçicada de Black Jewelled Moon, com uma irrepreensível articulação entre as vozes de João Rui e de Carla Torgerson, transborda uma luminosa e majestosa melancolia, num belíssimo tratado de folk acústica onde a simplicidade melódica coexiste com uma densidade sonora suave que deslumbra e corrói, mesmo os corações mais empenedridos.


Ao terceiro tema deixamos de ficar do lado de fora e são-nos finalmente abertas de par em par as portas do poeirento saloon, um antro de vício e luxúria, em plena aridez do deserto mojave, mas que poderia ser também a tasca da Dona Matilde, algures entre Serpa e o Redondo. Embalados pelo blues fumarento, arrastado e fortemente sensual de Without The Prize, pouco depois, em Midnight Rain, já estamos (in)comodamente instalados na primeira mesa que encontramos, onde, enquanto olhamos em redor, reavivamos toda a carambola de emoções que habitam no lado mais agreste do nosso coração (How is your love with the people down below?).


O disco prossegue e em Them Fine Bullets somos trespassados pela bala mais luzidia e certeira do tambor do cano, depois de termos sido convocados pelo para um duelo, mesmo ali, do lado de fora do estabelecimento comercial, onde confrontámos aquele nosso maior medo que todos guardamos cá dentro, o que nos abate e nos acolhe e que é, quase sempre, a incontornável e inevitável morte (But I have the need of nothing, so I'll take them fine bullets to my grave). Tides Of Winter é o momento dramático em que sentimos o último sopro libertário e somos conduzidos ao além numa marcha dramática que devolve ao pó o que é do pó, para assim podermos aceder finalmente, em Gates of Hell, ao instante do juízo final, onde decidimos se queremos realmente deixar que as agruras do amor e desta vida nos dominem, ou se queremos ser nós a tomar as rédeas do nosso próprio destino e viver uma vida plena (I'm counting the days of trust lost with fate, and since you've been praying outside the wrong gate, Let me tell you brother heaven is just a word. Oh you've been looming by the gates of hell).


Até ao ocaso, refeitos e com uma segunda oportunidade guardada secretamente na algibeira do colete coçado, junto ao relógio de corda que conta em sentido contrário o tempo que falta para encararmos novamente o nosso destino, Bring Them Roses é uma canção que cabe nessa algibeira e na de todos aqueles que já viveram amores desencontrados e não correspondidos, com o alinhamento a encerrar com Hardly My Prayer, canção que plasma a enorme capacidade que esta dupla possui para escrever canções que tocam fundo e que transmitem mensagens profundas e particularmente bonitas.


Há definitivamente algo de especial nestes A Jigsaw e na originalidade com que usam aspetos clássicos da folk para criar um som cheio de frescura e vitalidade, mas onde também há espaço para composições melancólicas, com um acabamento bucólico e onde sa sensualidade feminina e o lado mais rugoso e áspero da masculinidade, muitas vezes se fundem e se confundem, em canções desprovidas de género e carregadas de emoções e sentimentos.


No True Magic é, por tudo isto e muito mais, outro marco numa época de extraordinária e definitiva afirmação do cenário musical indie e alternativo português. Confere, já a seguir, a entrevista que a dupla me concedeu e espero que aprecies a sugestão...




Com uma carreira já cimentada de uma década, iniciada com o EP From Underskin e depois do sucesso alcançado em 2011 com Drunken Sailors & Happy Pirates, regressam aos lançamentos com No True Magic, onze canções ambiciosas, impecavelmente produzidas e com um brilho raro e inédito no panorama nacional. Começo com uma questão cliché… Quais são, antes de mais, as vossas expetativas para este novo trabalho?


Creio que a melhor expressão seria a expectativa da continuidade. Tanto da continuidade da aceitação das nossas canções por quem já conhece o nosso trabalho como também a continuidade no acto de levar as nossas canções a cada vez mais pessoas de cada vez que temos um álbum novo. Isto porque as nossas expectativas em relação ao álbum já foram atendidas assim que ele ficou finalizado.


Confesso que o que mais me agradou na audição do álbum foi uma certa bipolaridade entre a riqueza dos arranjos e a subtileza com que eles surgiam nas músicas, muitos de forma quase impercetível, conferindo à sonoridade geral de No True Magic uma clara sensação de riqueza e bom gosto. Em termos de ambiente sonoro, o que idealizaram para o álbum inicialmente correspondeu ao resultado final ou houve alterações de fundo ao longo do processo?


Há sempre coisas que se alteram entre a génese da criação das canções e depois o formato final que assumem nos álbuns. Faz tudo parte de um processo de refinamento da canção até que fiquemos satisfeito. Esses detalhes que vão surgindo são intencionais. Aliás como o é tudo neste álbum. Não existe nada nele sem uma forte razão para sustentar a sua inclusão no álbum. Um exemplo de uma canção que se transfigurou desde o momento da sua criação foi a tides of winter que inicialmente tinha sido pensada como uma peça com um arranjo simples e despido de instrumentações e acabou por se tornar a música que mais instrumentos tem neste álbum. Seriam necessários cerca de 50 músicos no mínimo para apresentar essa canção ao vivo tal como ela se encontra na gravação patente no álbum.


Além de ter apreciado a riqueza instrumental das cordas, dos sopros e da percussão, onde não faltam instrumentos como o violino, a harpa e uma trompa francesa e também a criatividade com que selecionaram os arranjos, também gostei particularmente do cenário melódico destas vossas novas canções, que achei particularmente bonito. Em que se inspiram para criar as melodias? Acontece tudo naturalmente e de forma espontânea em jam sessions conjuntas, ou as melodias são criadas individualmente, ou quase nota a nota e depois existe um processo de agregação?


O momento da criação pode ser um momento solitário. E com isto refiro-me à primeira centelha de uma melodia por exemplo. Mas só consideramos a música como aproximada de uma versão final do que será a partir do momento em que a experimentamos em conjunto e em que discutimos qual a ideia que cada um de nós os dois tem acerca do caminho a seguir com determinada música. Portanto acaba por ser um pouco a soma dos dois. Agora de onde vem a inspiração será porventura uma pergunta de difícil resposta pois não se sabe ao certo de onde advém essa magia. Mas algo que temos perfeita consciência é do trabalho imenso que nos aguarda se nos agrada aquela tal centelha. E é trabalho ansiado.


De acordo com vocês, True Magic aborda a questão da mortalidade e a imortalidade como o milagre maior e a diferença entre magia e ilusão, como se a explicação de um truque quebrasse de algum modo o encanto que aquilo que não podemos explicar racionalmente geralmente nos provoca. No True Magic é uma tentativa de desmontar a morte e torná-la mais acessível e menos mística? A beleza das vossas texturas sonoras quase que provoca a sensação que existe um certo encanto na morte, na ideia de mortalidade e que é esse imponderável da vida que nos leva a querermos viver sempre intensamente. Qual é, no fundo, a grande mensagem que querem transmitir neste disco?


A mensagem acaba por ser a consciencialização dessa mortalidade e dos artifícios de que nos munimos para fingir o seu esquecimento. Quanto ao que fazer com essa informação ou conhecimento a todos os instantes, isso será algo com o qual cada pessoa tem de lidar e para o qual este álbum não será ajuda. Ele é ajuda apenas no caminho até essa consciência.


Aproveitando a deixa... Como está neste momento a vossa relação com Deus? E com os dEUS belgas, de tom Barman, que inspiraram, através de uma das suas canções (Jigsaw You), o título do vosso projecto?


Seremos porventura ateus religiosos ou religiosamente ateus? Temos uma opinião e uma relação com esse Deus relativamente oposta. Contudo certo será que temos um bom punhado de perguntas para Lhe fazer. Quanto à relação com os dEUS já foi melhor. Isto em relação ao trabalho actual deles, já que em relação a álbuns como In a Bar Under The Sea, esses deixaram a sua marca de tal forma que a sua intemporalidade obriga a uma boa relação com esses.


No True Magic foi produzido pela própria banda. Esta opção acabou por surgir com naturalidade ou já estava pensada desde o início e foi desde sempre uma imposição vossa? E porque a tomaram?


Em boa verdade e exceptuando o nosso primeiro álbum Letters From The Boatman, devido à nossa inexperiência do trabalho de estúdio na altura, todos os nossos álbuns desde então foram sempre produzidos por nós pois a nossa visão acerca da estética musical é de tal forma certa em relação a como queremos que fique o álbum que não poderia ser de outra forma. A única diferença é que desta vez não há uma co-produção e assumimos a inteira responsabilidade desse "trabalho" nos créditos do álbum.


Adoro a canção Black Jewelled Moon. Os A Jigsaw têm um tema preferido em No True Magic?


Creio que o tema favorito de ambos é No True Magic. Não a música mas o álbum. Isto porque escrevemos e gravámos mais canções do que aquelas que estão no álbum. As 11 que chegaram ao álbum são as nossas favoritas. As outras ainda que partilhem da mesma devoção da nossa parte não encontraram lugar nesta primeira edição mas que irão certamente ver a luz do dia no futuro tal como já havia sido planeado.


Já agora, como surgiu a possibilidade de contar com a voz de Carla Torgerson neste tema?


Esta possibilidade foi criada por nós quando decidimos escrever esta canção para a Carla interpretar. Decidimos criar uma narrativa que envolvesse um papel feminino que teria que ser interpretado por ela e mais ninguém. Cada uma das palavras foi pensada para a sua voz. Isto é também fruto de uma paixão que nutríamos pela sua voz desde que a ouvimos no dueto Travelling Light dos Tindersticks há cerca de vinte anos no seu segundo álbum. Assim que terminámos a escrita da canção falámos com o Chris Eckman (vocalista dos Walkabouts) que nos deu o contacto da Carla e assim conseguimos falar com ela. Claro que à data em que decidimos escrever a canção para a Carla não sabíamos se ela iria aceitar ou sequer se alguma vez a iria ouvir. Foi um salto de fé que correu muito bem porque ela adorou a canção e de imediato acedeu a participar na mesma. E ainda que falemos da não existência de magia verdadeira. Quando recebemos as gravações da Carla que foram efectuadas em Seattle pelo Glenn Slater, foi um momento verdadeiramente mágico para nós.


Este disco conta com outras participações especiais de relevo, nomeadamente Susana Serra (violino), Gito Lima, Pedro Serra, Guilherme Pimenta, na bateria, Hugo Fernandes e Laurent Rossi, entre outros. São amigos com quem quiseram sempre trabalhar, ou profissionais que foram contactando devido ao seu valor artístico? Em suma, como foi possível congregar nomes tão ilustres à tua volta?


As participações nos nossos álbuns são sempre e em primeiro lugar fruto da admiração que nutrimos pela arte de quem decidimos convidar. E nisso já sabemos à partida que serão boas participações pois conhecemos o trabalho deles. Posto isto é natural que hajam casos que se diferenciam como o caso do convite da Susana Ribeiro que é tão devido à sua arte como envolve um lado emocional pelo facto de ter feito parte dos a a jigsaw ( e em boa verdade o seu coração está de tal forma entrelaçado no nosso que nunca deixará de fazer parte ainda que não presente). Nenhuma outra pessoa poderia ter escrito aquele violino nem nós o aceitaríamos. Temos também casos como o do Gito Lima que desde o nosso segundo álbum que tem gravado sempre o contrabaixo de um tema por álbum e que para além disso neste No True Magic é o responsável pelo design gráfico. O Pedro Serra faz parte agora da banda de suporte que criamos para levar este álbum para a estrada: a The Great Moonshiners Band, tal como o caso do Guilherme Pimenta que nós acompanha na estrada há cerca de três anos. Ou seja, volta aqui também a haver uma razão por detrás de tudo.


Não sou um purista e acho que há imensos projetos nacionais que se valorizam imenso por se expressarem em inglês. Há alguma razão especial para cantarem em inglês e a opção será para se manter?


A razão principal foi o facto de ter iniciado os meus estudos anglo-saxonicos desde tenra idade e o inglês se ter tornado assim uma segunda língua tão natural como o Português. Em ultima análise a culpa de cantarmos inglês é dos meus pais por me terem proporcionado essa educação. E sendo que é uma opção que já dura há 15 anos, no âmbito de a A Jigsaw seria impossível ser de outra forma. Faz parte da nossa identidade.


O que vos vai mover sempre será a folk, o blues e a pop experimental ou gostariam ainda de experimentar outras sonoridades? Em suma, o que podemos esperar do futuro discográfico dos A Jigsaw?


Saber o que nos vai mover daqui a 20 anos é um exercício no campo da futurologia experimental. Mas certamente que haverá sempre uma relação umbilical com o folk ou blues independentemente do comprimento desse cordão. Nas palavras do Willie Dixon "os blues são as raízes e tudo o resto são os frutos". Saber daqui a 20 anos quanto distamos das raízes é um exercício fútil. Mas mantendo-nos fiéis a essa máxima do Dixon, não estaremos muito longe. Temos ideias para projectos futuros nossos onde exploramos outro tipo de sonoridades mas que, e mais uma vez, são unidos por essa consciência de proximidade da raiz comum. Os blues.

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