Conforme anunciei em Curtas... CXI, Daughn Gibson, um músico natural de Carlisle, na Pensilvânia e baterista da banda de metal Pearls, está de regresso aos disco com Me Moan, depois de a quatro de maio de 2012 ter lançado All Hell, o seu disco de estreia, através da White Denim. Se All Hell pintava um cenário doloroso, constantemente melancólico e assumidamente pessoal, um universo de composições amarguradas e sentimentos sinceros e era um fino retrato da country alternativa norte americana, em Me Moan mantém-se esse universo hermético, onde melancolias eletrónicas se cruzam com a country, mas com uma superior abrangência sonora e uma tentativa evidente de chegar a uma maior massa de ouvintes.
Me Moan impressiona no imediato pela limpidez sonora feita com uma produção impecável e pela forma como o registo vocal grave de Daughn atravessa todo o disco. É uma obra polida, cheia de detalhes e nuances, copm uma sonoridade muito menos caseira do que a que sustentava All Hell. É um pouco como se, instrumentalmente, os The XX se interessassem repentinamente pela country e dessa forma alargassem o seu compêndio sonoro e, servidndo-se da voz de Daughn e do gosto do mesmo pela música popular norte americana, o ajudassem a crescer e a traduzir novamente e com umaroupagem alternativa os seus próprios sentimentos.
As canções de Me Moan não têm grande segredo e talvez seja por isso que resultam na perfeição. Todas elas crescem a partir de cordes simples de uma viola que depois recebem batidas sintetizadas e toda uma carga de construções sonoras pouco convencionais. Logo a abrir, The Sound Of Law é uma representação segura do cenário musical que impregna o álbum; Cheia de guitarras, samples e uma bateria crescente, a canção cria um verdadeiro cenário musical, onde a voz de Gibson passeia de forma segura entre os vários arranjos que se escutam e que incluem um um pequeno coro de vozes bastante melancólico. Mad Ocean é um dos destaques do disco, uma canção cheia de colagens eletrónicas, com solos, harmonias e loopings que são raramente escutados em qualquer outro projeto atual. Em suma, há aqui evidências que habilitam Daughn a trilhar novos rumos sonoros que talvez seriam inimagináveis há um ano e que até já se revelam com esplendor e beleza na country melódica de Kissin On The Blacktop. Essas duas músicas e outras como All My Days Off e Into The Sea dão-nos a sensação constante de que a obra de Gibson se mantém ainda numa fase de plena descoberta e ascensão.
O sofrimento é uma temática transversal a Me Moan, nas tentativas de superação (Franco), nas buscas fracassadas de um novo amor (The Right Signs) e numa variedade de provocações constantes que lentamente nos submergem no mais puro sofrimento. Claro que faltam aqui músicas do calibre de Tiffany Lou e In the Beginning, mas esta visão geral menos comercial do disco não o fragiliza relativamente ao antecessor e solidifica o processo evolutivo deste artista.
Casamento perfeito entre vozes, versos e sons, Me Moan é um objeto de plena comunhão lírica e instrumental, que tem na dor o principal componente de um trabalho de um compositor que usa um catálogo sufocante de percepções e sentimentos para interligar as suas emoções. Daughn continua a cantar sobre si próprio, mas aos poucos sabe como transformar esta individualidade na manifestação de sentimentos que também podem ser partilhados por todos nós. Espero que aprecies a sugestão...
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