Deerhunter - Monomania

Após um hiato de três anos durante o qual Bradford Cox e Lockett Pundt editaram discos nos projetos Atlas Sound e Lotus Plaza, respetivamente, os novos Deerhunter, que agora contam contam com o baixista Josh Mckay e o guitarrista Frankie Broyles, já têm sucessor para o muito aclamado Halcyon Digest. Editado a sete de maio pela 4AD e produzido por Nicholas Vernhes (que já trabalhou com Dirty Projectors, Spoon e Animal Collective) e o próprio Bradford Cox, Monomania é o disco mais recente desta banda nova iorquina, sendo composto por onze canções inéditas, que representam uma transformação clara relativamente à pop primorosa do antecessor. Já agora, para quem não sabe, a monomania é um distúrbio psicológico que se reflecte numa espécie de obsessão por uma única ideia ou sentimento. Só um distúrbio deste tipo pode explicar a forma como uma banda passa do seu disco mais harmonioso para o mais caótico. Não foi uma transição suave e, quando pus Monomania a rodar pela primeira vez, surpreendi-me com o seu arranque cru e pujante.


 


Monomania encarna pouco mais de quarenta e três minutos de pura distorção, vozes quase inaudíveis e uma raiva que ainda não tinha sido vista nos Deerhunter, mesmo nos primeiros álbuns da banda, nomeadamente a dupla Turn It Up FaggotCryptograms. Gravado no Rare Book Studio de Brooklyn, é um típico disco de garage rock, com uma elevada estética punk, cheio de guitarras vintage que, em determinados memomentos, parecem ter ouvido Think Tank dos Blur, algo muito percetível na funky Pensacola e na suja, rugosa e distorcida Leather Jacket II.


Jovial, hiperativo e, como já disse, barulhento, Monomania tem uma toada lo fi, crua e pujante, é um disco cheio de quebras e mudanças de ritmos, com uma certa e, quanto a mim, feliz dose de improviso, que pode dividir as opiniões de quem já conhece o som da banda e dos novos ouvintes que certamente irão aparecer com este novo trabalho. A própria canção título ilustra muito bem o conteúdo de Monomania já que é um tema com o qual é difícil não ficar impressionado, devido à energia ímpar que debita ao longo de seus mais de cinco minutos de duração, cheia de sons que se atropelam durante o percurso. Antes dela sucederam-se outros temas cheios de personalidade e, sendo Monomania a décima e antepenúltima canção, é legítimo ficar-se com a sensação nas primeiras audições que percorreu-se todas as outras canções para chegar até ali, o ponto alto do álbum. No caminho, encontramos algumas boas surpresas, como as tais Leather Jacket II e Pensacola, além da divertida Dream Captain, uma música que poderá ser um futuro single e com claras referências aos Queen, algo que faz qualquer saudosista e adepto de boa música certamente sorrir.


The Missing, T.H.M. e Sleepwalking abrandam um pouco o ritmo durante esse percurso e a semelhança entre elas pode fazer com que a personalidade de cada uma demore um pouco a revelar-se nos nossos ouvidos, mas certamente será compensador experimentar sucessivas audições para destrinçar os detalhes precisos e a produção impecável e intrincada que as distingue e que, por acréscimo, sustenta o restante conteúdo de Monomania. Mas a primeira, The Missing, uma canção sóbria, calma, limpa e tranquila, é o meu tema preferido do álbum, um viciante momento de pop melosa e introspetiva e curiosamente a única canção do disco escrita e cantada pelo guitarrista Lockett Pundt.


Quando se ouve um novo álbum nunca é de descurar o exercício anterior de tentar perceber o conceito por trás da sua produção; E neste caso concreto, a tal feliz dose de improviso terá sido, certamente, propositada, como se os Deerhunter fossem criando novos temas e resolvido acrescentá-los, um por um, sem a preocupaçõa de criar um alinhamento linear e coeso. Por exemplo, as mudanças bruscas na direção, como a transição entre Sleepwalking e Back to the Middle, reforça essa ideia e faz de Monomania um disco feito na emoção e na intuição.


Os Deerhunter não são nenhuns principiantes, sabem que territórios devem pisar e esta liberdade é algo que nem todos conseguem com semelhante qualidade. Pode parecer uma jogada demasiado arriscada passar da tal pop primorosa e alinhada de Halcyon Digest para a imprevisibilidade, o louvável distúrbio e o caos de Monomania, mas estas novas canções apenas provam que os Deerhunter não gostam de se acomodar e apresentar as mesmas ideias e conceitos de disco para disco.


Monomania é um disco muito variado em estilos e mostra uma faceta mais rock de uns Deerhunter que se mantêm no pico da sua produção criativa, além de comprovar que este coletivo pode encarnar novos personagens e navegar em diferentes campos de exploração. A imprevisibilidade é, afinal, algo de valor no mundo artístico e aqui, Bradford Cox, uma dos personagens mais excêntricas no mundo da música de hoje, tem isso a jogar a seu favor. Se Halcyon Digest era, esteticamente, uma obra prima devido à pop melódica, límpida e polida, em Monomania o ruído também assenta também muito bem aos Deerhunter. Espero que aprecies a sugestão...


 




01. Neon Junkyard
02. Leather Jacket II
03. The Missing
04. Pensacola
05. Dream Captain
06. Blue Agent
07. T.H.M.
08. Sleepwalking
09. Back To The Middle
10. Monomania
11. Nitebike
12. Punk (La Vie Antérieure)


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