Depois de terem editado Beat the Devil's Tattoo em 2009, os norte americanos Black Rebel Motorcycle Club (BRMC) de Peter Hayes, Robert Levon Been e Leah Shapiro, estão de regresso com Specter At The Feast, o sétimo disco de uma carreira de doze anos de uma banda que se estreou em 2001 com um extraordinário homónimo e cujo conteúdo fez desta banda de São Francisco os potenciais salvadores do rock alternativo.
Ao longo destes doze anos, os BRMC talvez não tenham salvado o rock, mas há que ser justo e admitir que se tornaram numa das bandas essenciais deste género musical. Mesmo após a estreia e o similar Take Them On, On Your Own, quando infletiram um pouco no rumo e em Howl abraçaram também a country e a folk, não deixaram nunca de perder a sua identidade, que apenas foi um pouco abalada com Baby 81 e The Effects of 333, os dois únicos álbuns dos BRMC que não me seduzem e que considero terem sido verdadeiros tiros ao lado na valiosa trajetória musical do grupo. Assim, na primeira década de existência, os BRMC nem sempre cumpriram a ótima expetativa criada na estreia mas, em 2009, Beat the Devil's Tattoo voltou a colocar o percurso dos BRMC nos eixos, refrescou-os e pessoalmente devolveu-me a esperança e deixou-me com água na boca relativamente ao futuro e ao sucessor.
Specter At The Feast tem doze canções feitas de country, garage rock, blues e psicadelia, ou seja, que congregam muitas das qualidades dos BRMC, mas que também, infelizmente, voltam a expôr alguns dos seus maiores defeitos. Mantém-se o espírito volátil do grupo, há uma maior dose de epxerimentalismo e recuperaram a sonoridade ruidosa que os sustentam. Se analisarmos as canções individualmente, extraídas da dinâmica do disco, a bitola qualitativa talvez seja maior do que a pura e simples análise de Specter At The Feast como um todo porque, em traços gerais, o disco é muito heterógeneo e nada feliz sequencialmente. Este entusiasmo seguido de algum tédio e vice-versa evidencia que não terá havido uma acertada escolha do alinhamento e, por isso, alguns temas que demonstram que os BRMC não perderam a capacidade de fazer grandes canções acabam por ficar relativamente isolados no meio daqueles que trazem à tona momentos menos inspirados. Returning, uma canção liricamente marcada pela partida de alguém querido, algo que, como veremos à frente, sucedeu com os BRMC (but you must leave and not turn back, knowing what you hold, how much time have we got left, its killing us, it carries us on) e Rival são dois temas que provam a existência destes dois pólos opostos.
Specter At The Feast começa com Fire Walker, um típico tema introdutório, com um baixo firme e constante e momentos etéreos criados pelo sintetizador. Depois, uma das canções que mais remete para o glorioso passado dos BRMC é Let The Day Begin, um tema onde é perfeito o encontro entre a guitarra de Peter, o baixo de Robert e a forte percussão de Leah. Esta canção é o meu destaque maior de Specter At The Feast e será, certamente, uma homenagem sentida a Michael Been, pai de Robert e engenheiro de som dos BRMC durante vários anos, falecido em 2010 logo após um concerto na Bélgica e que tinha gravado essa canção há alguns anos com os The Call, banda a que Michael pertenceu. A morte provoca sempre reaçoes imprevisíveis em quem a enfrenta e os BRMC tiveram de aprender a liderar com a perca de um ente querido, alguém que os acompanhou diariamente durante vários anos. Acabaram por canalizar para a música o sofrimento que sobre eles se abateu e usar essa morte como um meio criativo e assim expressarem, através desta tragédia, a sua visão poética da dor, de forma comovente e sincera, não só em Let The Day Begin, mas em todo o conteúdo do disco. Specter At The Feast acaba por ser contagiado por esse clima sombrio e funcionar como uma espécie de tributo a Michael Been, além de ser uma forma de lidar com a dor dessa perca.
Outros destaques de Specter At The Feast são, na minha opinião, Hate The Taste, um tema que introduz a sequência mais ruidosa do disco e que tem traços de post-punk e blues, Teenage Disease, canção onde essa fúria se mantém, mas que agora abraça o noise rock e o rock alternativo e a psicadelia etérea que tomam conta de Sometimes The Light, devido ao órgão que nela se escuta.
Specter At The Feast encerra majestosamente com Sell It e Lose Yourself, duas longas canções feitas com efeitos de guitarras sombrios e interessantes e marcadas por belas melodias. A primeira volta a falar da dor da perca e apela a uma lado mais religioso, falando da importância de Deus para a superação da mesma (I got god, I got the medication i got enough to make it all go away) e Lose Yourself é o último esforço para que haja novamente luz, a mesma que acaba por brilhar na canção devido à interação brilhante entre a voz e delicadeza da guitarra de Peter.
Specter At The Feast é um álbum muito carregado emocionalmente e que reflete o estado psíquico de uma banda muito marcada por transformações e dissabores, mas que nunca deixou, ao longo da carreira, de tentar ser coerente no desejo de deixar, disco após disco, novas pistas para a salvação do rock. O resultado final algumas vezes não foi o melhor, mas essa nobre intenção sempre esteve presente na discografia dos BRMC e ganhou um novo vigor neste disco. Espero que aprecies a sugestão...
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